E se Umberto Eco analisasse a arte criada por IA?

Recentemente, perguntei para a IA com quem conversava:

“Você sabe quem foi Umberto Eco? E conhece o livro Apocalípticos e Integrados?”

A resposta veio rápida, articulada e provocadora:

Umberto Eco foi um intelectual italiano brilhante — semiólogo, filósofo, romancista, linguista e crítico cultural. Ficou conhecido por obras como O Nome da Rosa, mas sua contribuição teórica é profunda, especialmente na área de comunicação de massa e semántica. No livro Apocalípticos e Integrados (1964), ele analisa as reações à cultura de massa: os ‘apocalípticos’, que veem a cultura popular como ameaça, e os ‘integrados’, que a aceitam como parte legítima da vida contemporânea. Eco não se posiciona em nenhum dos extremos — propõe uma leitura crítica, sofisticada, cheia de camadas e atenção ao contexto.

Com essa resposta, lancei a pergunta que se tornou o ponto de partida da reflexão deste artigo:

“O que Umberto Eco diria sobre a arte criada por inteligências artificiais como vocês?”

A lente de Eco: nem apocalíptico, nem integrado

Em Apocalípticos e Integrados, Eco identifica dois tipos de postura diante da cultura de massa:

  • Os apocalípticos, que a veem como uma ameaça à cultura elevada, ao pensamento crítico e à autenticidade da expressão humana.
  • Os integrados, que a aceitam com entusiasmo ou resignação, considerando-a uma expressão legítima da modernidade.

Eco se recusa a escolher um lado. Ele propõe uma leitura mais refinada e semiótica: a cultura de massa pode sim ser lida criticamente, desde que a compreendamos como um sistema de signos. O valor está na capacidade de uma obra provocar sentido, gerar interpretações, criar contextos e estimular leitura crítica.


A arte feita por IA e o olhar semiótico

Eco provavelmente não perguntaria “é arte ou não é?”. Ele talvez perguntaria:

“Quais signos ela mobiliza? Que repertório cultural está sendo recombinado? Que intenção ou contexto ela carrega?”

A arte feita por IA não surge do nada. Ela é fruto de algoritmos que reorganizam dados, estilos, estéticas, vocabulários e padrões baseados em informações humanas já existentes. Trata-se de uma recombinação estatística do que já foi produzido, não de um gesto criativo espontâneo.

Isso não invalida seu valor estético. Mas nos desafia a fazer perguntas mais profundas:

  • Essa arte nos provoca? Nos desloca? Ou apenas repete estéticas consagradas?
  • Existe ambiguidade simbólica, ironia, tensão?
  • Estamos sendo mais criativos ou apenas mais dependentes das tecnologias?

O humano ainda é o leitor, o autor e o editor

A obra ganha vida no encontro com o leitor.

Para Eco, a leitura é um ato criativo.

Por isso, ele valorizava os conceitos de “autor implícito” e “leitor modelo”, figuras que participam ativamente da produção de sentido.

A IA, por mais refinada que seja, ainda não tem intenção. Não ironiza, não tem tensão, não pensa. Ela executa comandos e probabilidades. Por isso, precisa do olhar humano para dar sentido, edição, direção e contexto àquilo que produz.

A inteligência não está apenas no código. Está no que escolhemos fazer com ele.


Ferramenta ou bengala? A escolha é nossa

Como educadora, vejo na IA uma ferramenta poderosa. Ela pode democratizar processos, ampliar repertórios, sugerir caminhos. Mas também pode embotar o olhar, reduzir o senso crítico e pasteurizar o que chamamos de “criatividade”.

Por isso, talvez a grande pergunta de Eco hoje fosse:

“A arte feita por IA nos ajuda a pensar mais profundamente? Ou apenas nos entrega soluções mais rápidas?”

Eu acredito que a diferença entre um uso verdadeiramente criativo e um uso meramente confortável da tecnologia está em nós. Está na intenção com que acessamos, no contexto que escolhemos criar, nas perguntas que ousamos formular, e, sobretudo, na escuta que cultivamos diante do que é gerado. Porque mais do que consumir respostas prontas, o que transforma é a capacidade de tensionar sentidos, de ler nas entrelinhas e de usar a tecnologia como ponte para o crescimento e a mudança, e não como atalho.


E você?

A arte feita por inteligência artificial está ganhando espaço. Mas você sente que ela está expandindo ou achatando nossa experiência cultural?

Ela te provoca? Ou te serve?

Ela te faz pensar? Ou rolar a tela?

Porque, como Eco diria, o sentido não está só na obra, está na interpretação e no contexto.