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Foi apenas um feedback.

Foi apenas um feedback.

O feedback que destrói confiança sem que ninguém perceba

“Foi apenas um feedback.”

Essa é uma das frases mais perigosas que um líder pode dizer depois de uma reunião difícil.

Para quem deu o feedback, a conversa foi objetiva, transparente e necessária.

Para quem recebeu, foi humilhante.

Nenhum dos dois está, necessariamente, errado.

O problema é que ambos interpretaram a mesma interação a partir de referências culturais completamente diferentes.

À medida que as empresas internacionalizam suas operações, cresce um risco silencioso que raramente aparece nos indicadores de RH ou nas reuniões do conselho: líderes competentes começam a perder influência não porque tomam decisões equivocadas, mas porque a maneira como comunicam essas decisões produz efeitos inesperados.

Em muitos casos, o resultado não é um conflito aberto. É pior. É a perda gradual de confiança.

E confiança é um dos poucos ativos organizacionais que, quando se rompe, dificilmente aparece em uma planilha.

Ela se manifesta em reuniões mais silenciosas, menor disposição para assumir riscos, redução da colaboração e queda na velocidade de execução.

A questão é que esse fenômeno não é apenas uma percepção prática. Ele vem sendo estudado há anos por pesquisadores de comportamento organizacional.

Um caso real: quando a intenção era ajudar

Em um artigo publicado pelo INSEAD Knowledge e posteriormente adaptado para a Harvard Business Review, a professora Erin Meyer apresenta um caso que ilustra esse fenômeno de forma bastante clara.

Olga, uma executiva de Recursos Humanos da Ucrânia, mudou-se para os Estados Unidos para assumir uma nova posição. Na cultura em que foi formada, feedback direto é entendido como demonstração de respeito e profissionalismo. Quando percebeu que uma colega cometia erros frequentes na folha de pagamento, chamou-a reservadamente e foi objetiva:

“Isso não pode continuar. Esses erros estão criando grandes problemas.”

Dias depois, um novo erro aconteceu. Outro gestor enviou um e-mail reclamando da situação. Olga respondeu reforçando que aquilo era inaceitável e colocou a colaboradora em cópia para que ela acompanhasse toda a discussão.

Na sua percepção, estava sendo transparente.

Na percepção da colaboradora americana, estava sendo exposta.

O resultado surpreendeu Olga. A funcionária ficou profundamente abalada e pediu transferência para outra área. Pouco depois, seu próprio gestor explicou que aquela forma de dar feedback era considerada inadequada no contexto cultural americano.

O conteúdo do feedback não era o problema. O problema era a forma.

A mesma mensagem produz efeitos diferentes

Esse episódio revela um erro comum entre líderes internacionais. Muitos acreditam que existe uma forma universal de dar feedback.

Não existe uma forma universal de dar feedback.

Erin Meyer demonstra que diferentes culturas desenvolveram expectativas muito distintas sobre como críticas devem ser feitas.

Em culturas mais diretas, como Holanda, Alemanha, Israel, Rússia ou Ucrânia, críticas explícitas costumam ser interpretadas como honestidade.

Já em outras culturas, como Estados Unidos, Tailândia ou Reino Unido, preservar a autoestima e a relação interpessoal faz parte do próprio processo de comunicação.

Nesses contextos, uma crítica excessivamente direta pode ser percebida como agressão, ainda que a intenção seja construtiva.

Em outro caso apresentado por Meyer, Jethro, um gestor americano do Vale do Silício, realizava reuniões por vídeo com colegas na Tailândia.

Após oferecer feedback considerado absolutamente normal dentro da cultura corporativa americana, recebeu uma reclamação formal do RH local. Os colegas tailandeses interpretaram sua postura como intimidação. Para eles, o problema não era o conteúdo das observações. Era a maneira como haviam sido feitas.

O cérebro reage antes da razão

Existe ainda outro aspecto interessante.

No mesmo artigo, Erin Meyer lembra que feedback ativa duas regiões diferentes do cérebro. A parte racional entende que receber observações pode gerar aprendizado. Já a amígdala cerebral interpreta críticas como potenciais ameaças. Quando isso acontece, o cérebro entra em modo de defesa.

Quanto maior a distância cultural entre quem fala e quem escuta, maior tende a ser o risco de que um feedback bem-intencionado seja percebido como hostilidade. Isso explica por que tantos líderes afirmam:

“Eu só queria ajudar.”

Enquanto seus colaboradores saem da reunião pensando:

“Ele não confia em mim.”

O custo para o negócio

Executivos raramente perdem projetos por causa de um único feedback. Perdem pela sequência de pequenas interações que vão corroendo confiança.

Depois disso, aparecem sintomas conhecidos:

  • menos iniciativa;
  • menor colaboração entre áreas;
  • redução da inovação;
  • reuniões em que ninguém discorda;
  • problemas que deixam de ser comunicados;
  • decisões que chegam tarde demais.

Curiosamente, muitas empresas interpretam esses sinais como questões de desempenho. Na verdade, frequentemente são consequências de um ambiente onde a confiança foi enfraquecida. Por isso, feedback deixou de ser apenas uma habilidade de liderança.

Feedback passou a ser uma competência estratégica para organizações que trabalham entre culturas.

E a América Latina?

Há um equívoco recorrente nas empresas brasileiras.

Acreditar que, por compartilharmos proximidade geográfica, e, em muitos casos, o espanhol, a comunicação ocorre naturalmente.

Não ocorre.

Argentina, México, Peru, Chile, Colômbia e Brasil compartilham inúmeros pontos em comum.

Mas diferem na forma de construir confiança, interpretar hierarquia, expressar discordâncias e receber críticas. Um feedback considerado transparente por um líder brasileiro pode ser percebido como excessivamente duro em determinado contexto.

Da mesma forma, um retorno extremamente cuidadoso pode ser interpretado, em outro país, como falta de clareza ou ausência de posicionamento.

Nenhuma dessas diferenças está relacionada à competência técnica. Elas dizem respeito ao modo como cada cultura aprende a preservar relações, autoridade e confiança.

A pergunta que todo líder deveria fazer

Antes de preparar um feedback, muitos gestores pensam:

“O que preciso dizer?”

Talvez a pergunta mais importante seja outra:

“Como essa pessoa foi culturalmente condicionada a receber uma crítica?”

Essa mudança parece pequena.

Mas pode definir se uma conversa fortalecerá uma relação profissional ou iniciará um processo silencioso de afastamento. No ambiente internacional, comunicar não é apenas transmitir uma mensagem. É garantir que ela seja compreendida da maneira que você pretendia. E essa talvez seja uma das competências mais estratégicas para a liderança contemporânea.


Referências

  • Erin Meyer. The Pitfalls of Giving Feedback Across Cultures. INSEAD Knowledge / Harvard Business Review adaptation. (INSEAD Knowledge)
  • Erin Meyer. Giving Negative Feedback Across Cultures. INSEAD Knowledge. (INSEAD Knowledge)
  • Erin Meyer. When Diversity Meets Feedback. INSEAD. (INSEAD)

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