O que acontece quando você se permite escutar outra cosmovisão

Recentemente, vivi uma experiência difícil de traduzir, não por falta de palavras, mas porque ela acontece em outro lugar.

Um lugar que exige presença.

Participei de um encontro conduzido por Sweet Medicine Nation, guardiã de sabedoria com mais de 45 anos de experiência em práticas cerimoniais e ensinamentos dos povos originários norte-americanos, especialmente das tradições Choctaw, Chickasaw e Lakota.

Havia pessoas convidadas de diferentes partes do Brasil, desconhecidos, até então, mas unidos por algo muito claro, um desejo genuíno de paz, de conexão e de aprender.

Uma experiência leve… e profundamente transformadora

A cerimônia foi leve. E, ao mesmo tempo, profundamente intensa.

Sem excessos, sem imposições e sem a necessidade de entender tudo racionalmente.

O som da flauta e do tambor preenchia o espaço de forma quase orgânica. A fumaça da sálvia e do tabaco desenhava o ar com calma. E a voz da mestre, suave mas firme, conduzia algo que ia além de um ensinamento.

Era uma transmissão.

Uma transmissão que vinha do espírito com intenção, com respeito, com propósito de cuidar, de lembrar o essencial.

Sem pressa mas com sentido.

Abrir-se a outras culturas é também um ato de humildade

Quando nos abrimos verdadeiramente a outras culturas, não estamos buscando entender tudo de imediato.

Estamos escolhendo respeitar.

Respeitar o que é diferente, o que não é familiar, q que não cabe nas nossas referências habituais.

Em um mundo tão acelerado, onde queremos rapidamente nomear, classificar e traduzir, existe algo muito potente em simplesmente permitir que o outro exista como é.

Aprender com culturas diferentes, de qualquer parte do mundo, não é sobre concordar com tudo.

É sobre ampliar o olhar.

É reconhecer que existem outras formas de ver a vida, o tempo, as relações, o invisível.

E que isso não nos distancia. Nos expande.

Quando escutar deixa de ser automático

A possibilidade de ouvir não abre, automaticamente, a possibilidade de escutar.

Escutar se abre em outro lugar.

Se abre quando reconhecemos tudo o que temos para aprender.

Escutar se torna assim em um ato consciente, um compromisso com a aprendizagem, com o crescimento individual e interno, a serviço do coletivo.

E talvez exista aí uma verdade simples e profunda: no fundo, escutar o outro também exige escutar a si mesmo.

Mas é preciso criar espaço para ouvir.

Um fechamento

Saí daquele encontro com a sensação de que algo havia sido reorganizado por dentro.

Lembrei que ainda há muito a aprender com o mundo, com o que é diferente, com o outro, e claro, comigo mesma.

E aprender nos torna mais humanos, mais atentos, e, quem sabe, talvez seja isso que nos conecta, no fim. Essa busca silenciosa por sentido e presença e a coragem de continuar nos abrindo.