O que uma viagem a Foz do Iguaçu despertou em mim
Há viagens que terminam quando voltamos para casa. E há outras que continuam viajando dentro de nós muito depois.
Esta foi uma delas. Foz do Iguaçu me devolveu um olhar que eu não sabia que havia perdido e me fez atravessar um piso de aço vazado, suspenso sobre o vazio, mais vezes do que eu poderia imaginar ser possível.
Nesta semana, vou compartilhar algumas reflexões que surgiram dessa viagem, sobre cultura, liderança e comunicação. Mas esta primeira é diferente: é, simplesmente, o que Foz do Iguaçu me fez pensar.
Fui a Foz do Iguaçu pensando que iria ver as cataratas. Vi muito mais do que isso.
Vi milhões de litros de água caindo com uma força que as palavras não conseguem explicar. Vi uma garganta que parecia não ter fundo. Vi algo que há séculos continua caindo e que, ainda assim, nunca cai duas vezes da mesma maneira.
E senti algo difícil de nomear: estar diante de algo que pertence à eternidade.
Nós vivemos contando o tempo. Horários, compromissos, idades, objetivos. Medimos quanto falta, quanto já passou, quanto conseguimos suportar.
A água não sabe nada disso. Cai. Continua caindo. E continua sendo água.
Foi ali que começou a minha verdadeira viagem. Não nas cataratas: em mim.
Fui com meu neto de onze anos, e alguma coisa muda quando olhamos o mundo através dos olhos de uma criança. Deixamos de olhar apenas para ver e começamos a olhar para descobrir o que o outro está vendo.
O entusiasmo dele, suas perguntas, sua maneira de se maravilhar com algo que, para nós, poderia ser apenas mais uma foto no celular, me devolveram um olhar que, com os anos, vamos perdendo: aquele que ainda não precisa explicar tudo, aquele que simplesmente diz “olha isso”, e a gente olha. E realmente vê.
Talvez essa tenha sido a coisa mais importante que recuperei nesta viagem: a diferença entre ver e simplesmente olhar. Olhar pode ser automático. Ver exige presença.
Avançamos pela passarela. E foi aí que apareceu algo que eu não esperava que surgisse com tanta intensidade: a minha vertigem, ou medo de altura, especificamente diante daqueles pisos semitransparentes, de aço vazado, em que cada passo permite ver o vazio sob os nossos pés. E as passarelas das cataratas são exatamente isso: quilômetros desse piso, suspensos sobre a água.
A água estava por toda parte. A força da queda era sentida no corpo. O barulho era enorme. A umidade envolvia tudo. E, sob meus pés, a cada passo, a altura, visível, inegável, atravessando o metal vazado.
Houve momentos em que temi que o medo me paralisasse. O corpo parava antes que a mente pudesse decidir se eu continuava ou não.
Mas eu tinha diante de mim algo tão imenso que acabou sendo mais forte do que o medo. A maravilha foi me empurrando, passo a passo, sobre aquele piso que não deixava de me lembrar da altura.
E, ainda assim, houve momentos em que pensei: “não consigo mais”. Como quando atravessei o rio do lado argentino: o ponto em que o medo e o fascínio estavam tão próximos um do outro que eu já não sabia qual dos dois me fazia tremer mais.
Foi ali que surgiu algo que me acompanhou durante o restante da viagem e continua presente até hoje: a decisão de não acreditar imediatamente naquele “não consigo”.
Às vezes, o limite aparece primeiro na cabeça e depois no corpo. Outras vezes, acontece o contrário. O corpo pode estar tremendo sobre aquele piso vazado e, ainda assim, a mente decidir dar mais um passo.
Não se trata de negar os limites, mas de descobrir quais são realmente nossos e quais são apenas as fronteiras que construímos antes de verificar se conseguiríamos atravessá-las.
Cada passo foi uma pequena conversa comigo mesma:
Consigo continuar? Sim.
Estou com medo? Sim.
Isso significa que preciso parar? Não necessariamente.
E continuei.
Foi então que pensei em uma palavra que usamos muito e nem sempre compreendemos: empoderamento.
Não é sentir-se invencível, nem não ter medo. É reconhecer-se inteira: poder dizer “isso é difícil para mim” sem que isso se transforme em “eu não consigo”. É, talvez, a capacidade de decidir como nos relacionamos com aquilo que nos acontece, mesmo com o piso tremendo sob nossos pés.
Foz não foram apenas as cataratas.
Também houve o Templo Budista, e com ele outro contraste: depois do barulho ensurdecedor da água, o silêncio atinge de outra maneira. Como se a própria viagem nos levasse de um extremo ao outro.
Força e quietude. Ruído e silêncio. Movimento e contemplação. Natureza e construção humana. Profundidade e altura.
Talvez tenha sido justamente essa sucessão de contrastes que tornou a experiência tão poderosa.
Também visitamos Itaipu: outra forma do poder da água, desta vez transformada pela engenharia e pela capacidade humana de intervir sobre a natureza. As cataratas me mostraram uma força que existe sem nós. Itaipu, aquilo que somos capazes de construir quando tentamos compreendê-la e utilizá-la.
Duas maneiras diferentes de nos relacionarmos com a mesma coisa.
E penso que, em algum lugar entre essas duas águas, entre aquela que cai sem pedir permissão e aquela que aprendemos a conduzir, eu também continuo: tremendo um pouco, mas avançando, um passo de cada vez sobre aquele piso vazado.
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